Desperta-te ou te devoro

Ultimamente ando ampliando minhas leituras e estudos sobre vários assuntos, refletindo sobre como cada um deles está presente e impactando as vidas da humanidade.

O título dessa matéria veio quando estava pesquisando sobre como a tecnologia está impactando e irá impactar várias áreas da vida do ser humano: trabalho, social, pessoal, saúde. Quando falo saúde falo do intelecto, mental, emocional, físico.

Acredito que a tecnologia veio para simplificar e facilitar a vida, criar serviços mais eficientes, facilitar processos, melhorar várias áreas e acelerar a comunicação. Também pode facilitar e expandir o acesso aos conhecimentos, trocar experiências de vidas, gerar bons e rápidos resultados, aproximar as pessoas e as tornarem ainda melhores.

Mas também observamos que algumas pessoas estão tendo dificuldade em lidar com ela. Algumas resistem em utilizá-la, outras desejam, mas não têm condições de acesso. Existem, ainda, aquelas  pessoas que estão utilizando a tecnologia em excesso, prejudicando sua vida pessoal, profissional e saúde. Estas estão distraídas e nem notam que estão totalmente dependentes da ferramenta.

Se pararmos para refletir sobre algumas situações do nosso dia a dia, saímos para nos divertir com a família e amigos e ficamos imersos em celulares. Trocando algumas palavras, sem foco no presente momento, ou ainda pior: não conversam entre si.

Somos dependentes de uma conexão de internet 24 horas por dia para postar, curtir e repostar conteúdos, observar quantas e quais pessoas curtiram nossas postagens, e para satisfazer nossas curiosidades em vários âmbitos. Usamos a internet para nos informar dos fatos, cumprir tarefas, pagar contas, descobrir tendências, ideias, pesquisar empresas, pessoas, verificar e-mails, responder mensagens e acompanhar as atualizações das redes sociais. Isso se não fizermos tudo ao mesmo tempo. Faça um exercício agora: olhe para seu computador, tablet, celular e observe quantas abas estão abertas nesse exato momento.

O que mais se ouve hoje são reclamações de falta de tempo e exaustão física e mental, mas se observarmos todo o tempo que temos livre lá estamos conectados à tecnologia, à internet. Não temos tempo para outros afazeres e prazeres, mas para o celular sempre arrumamos um tempinho. Desafio você a usar um aplicativo que meça o tempo que você fica conectado ao celular. Você irá se espantar com o tempo perdido. Digo perdido pois a grande parte estamos só vendo a vida alheia deixando as horas passarem na improdutividade. 

Estamos deixando a tecnologia invadir e enraizar nosso corpo e vida, desrespeitando nosso ritmo psíquico, intelectual, emocional, físico, biológico e com isso vamos prejudicando nossa saúde.  Acredito que cada pessoa saiba ou deva procurar descobrir um limite de interação com a tecnologia, respeitando seu tempo, essência e natureza. Sejamos usuários da tecnologia e não escravos dela. 

A tecnologia evolui e continuará evoluindo, e o ser humano? A humanidade está evoluindo e tendo orgulho dessa evolução tanto quanto da evolução tecnológica? Somos seres que pensamos. Podemos escolher o que pensar, como pensar, mas na maioria das vezes vivemos no piloto automático.

As mais altas e incríveis tecnologias são inventadas e criadas pelo ser humano. Observe que todo potencial dessa maravilhosa criação que é a tecnologia veio de uma tecnologia pensante chamada mente humana.

Hoje a humanidade está muito preocupando com o High Tech, ou seja com a alta tecnologia, as inovações nos smartphones, iphone, computadores, automóveis entre outras inovações tecnológicas. Mas alguns especialistas e estudiosos nesse assunto observam uma grande necessidade dos seres humanos começarem a se preocupar com o High Touch, alto contato. Esse termo fala sobre a alta tecnologia do ser humano, ou seja, o alto contato humano. O tocar, atender, estar disponível para o outros, interagir, o afeto, o carinho, o respeito, a empatia, o olhar, sorrir, o contato interpessoal. Enfim, as características humanas.

O assunto é abordado no livro High Tech, High Touch de John Naisbitt, Nana Naisbitt e Douglas Philips. Essa sim é uma habilidade e tecnologia próprias de nós humanos, que nos conecta profundamente e verdadeiramente. Não é uma relação fria como máquinas, robôs ou sistema que reage aos estímulos por programação.

Inevitavelmente, hoje estamos começando a viver a quarta revolução industrial, conceito desenvolvido pelo alemão Klaus Schwab, diretor e fundador do Fórum Econômico Mundial. Outros estudiosos, cientistas, futuristas, empreendedores e pensadores também defendem esse termo. Segundo Schwab, a industrialização atingiu uma quarta fase, que novamente “transformará fundamentalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos”. Uma mudança de paradigma, não apenas mais uma etapa do desenvolvimento tecnológico.

Quer você goste ou não, estamos vivenciando a 4ª revolução. Isso significa que o desenvolvimento e as incorporações de inovações tecnológicas vão mudar radicalmente o mundo como o conhecemos. Irá moldar a indústria, governo, economia, marketing, trabalho, relacionamentos, estudos, estilo de vida e todo o modo de viver nos próximos anos.

Ainda me atrevo a dizer que essa revolução irá influenciar nosso estado psicológico, nossa estabilidade mental e emocional devido as rápidas mudanças em poucos anos, pois teremos que nos reinventar rapidamente.

Antes mesmo de você começar a pensar que isso é papo de quem vive estudando ou frequentando o Vale do Silício, que isso é papo de futurista, cientista, filósofo. Ou ainda, diga que esta realidade está muito longe de acontecer, que até chegar você vai estar velhinho ou não vai nem ver isso acontecer. Pense e reflita, principalmente para as pessoas que têm acima de 37 anos, como as coisas têm mudado rapidamente ao longo do tempo, principalmente depois dos anos 90.

Vamos analisar as revoluções, observando seu tempo de duração e as mudanças que cada uma trouxe para a humanidade.

Primeira Revolução industrial: Aconteceu entre 1760 a 1840/1860. Movida por tecnologias mecânicas como máquinas a vapor e as ferrovias. Essas máquinas substituíram processos manuais e o uso de animais para gerar força. Os países começaram a investir em pesquisa como um diferencial competitivo para a economia. Foi praticamente um século inteiro de revolução.

Segunda Revolução Industrial: Aconteceu entre o final do século 19 e início do século 20, tendo como principais inovações a eletricidade. Emprego em bens de consumo, eletrodomésticos, a linha de montagem e a difusão da produção em massa. A linha de montagem de carros de Henry Ford tornou-se o símbolo do período, pois possibilitou a produção em larga escala de produtos, de uma forma rápida e barata. Com duração de 40 anos.

Terceira Revolução: Iniciou na década de 1960, é o advento da informática e da tecnologia da informação, computadores mainframe, computadores pessoais. A tecnologia entra na fábrica para automatizar tarefas mecânicas e repetitivas. Nos anos 90, a internet e as plataformas digitais. Com duração de mais ou menos 40 anos.

Quarta Revolução: Ainda está em andamento, ela chegou por volta do ano 2000, trazendo impactos mais profundos que se define por um conjunto de tecnologias que permitem a fusão do mundo físico, digital e biológico. “A quarta revolução industrial não é definida por um conjunto de tecnologias emergentes em si mesmas, mas a transição em direção a novos sistemas que foram construídos sobre a infraestrutura da revolução digital” esclarece Schwab, em seu livro A Quarta Revolução Industrial. 

Essa nova fase será impulsionada por um conjunto de tecnologias “disruptivas” como robótica, inteligência artificial, realidade aumentada, big data (análise de volumes massivos de dados), nanotecnologia, impressão 3D, biologia sintética e a chamada internet das coisas. Nesta revolução, cada vez mais dispositivos, equipamentos e objetos serão conectados uns aos outros por meio da internet. Algumas dessas inovações estão em sua fase inicial e ainda não mostraram todo o seu potencial.

Observa-se que essa quarta revolução já lança alguns outros termos

Governo 4.0:  A tecnologia modificou e irá modificar o setor público, o modo de executar os serviços públicos, trazendo menos burocracia, mais transparência e mais prosperidade. Ambientes em diversos países como Dinamarca, Austrália, Correia do Sul, Reino Unido, Suécia entre outros já estão se adaptando com as novas tecnologias.  Também está modificando o modo de fazer política, governar e de se comunicar com o eleitor.

Marketing. 4.0: As empresas continuarão a fazer marketing tradicional, centrado na TV e na mídia impressa, mas o marketing digital (mídias sociais, mobile e internet) aumentará. “As empresas precisam saber como misturar e conectar seu marketing tradicional e seu marketing digital”. Philip Kotler. O cliente mudou, ele está mais envolvido com o que compra, ele pesquisa, compara, deseja conteúdo e informações. O cliente reclama e expõe sua satisfação e suas queixas publicamente, no intuito de orientar outros consumidores e exigir melhorias em suas marcas e produtos favoritos.

Nessa revolução os algoritmos do seu computador e celular conseguem compilar os dados de tudo que você segue, clica, pesquisa e mostra em suas timelines de redes sociais, as informações relacionadas ao seu perfil de busca atual. 

Já observa-se utilização de microchips em países como Suécia, Estados Unidos, Alemanha, Austrália e Nova Zelândia, onde há várias iniciativas para promover essa tecnologia futurista. Os chips contêm informações e substituem crachás, chaves, senhas de computadores, cartão de crédito, cartão de banco, carteiras de identidade, bilhetes de transporte, pagamento de contas, entre outras funções. 

A China está se posicionando para liderar o mundo em inteligência artificial até 2025 com a utilização da tecnologia de vigilância. Através de reconhecimento facial, scanner corporal integrados em uma plataforma nacional de vigilância e compartilhamento de dados, implanta o sistema ‘Black Mirror’ (avaliação de pessoas). O termo Black Mirror é baseado na série da Netflix sobre tecnologia e seus possíveis desdobramentos futuros, com um básico resumo que  a culpa nunca é da tecnologia, mas sim das pessoas.  A série mostra que as pessoas são julgadas o tempo todo, tanto por sua personalidade virtual quanto real e isso determina o valor social das pessoas, determinando seu acesso a serviços e até suas possibilidades de conseguir um emprego.

O SCR (sigla em inglês para Pontuação de Crédito Social) começou a ser testado em 2014 na China. Com ele, cada um dos 1,3 bilhões de chineses será constantemente avaliado por suas ações. Monitorados por meio de dados recolhidos das mais diversas fontes. Onde compra, o que compra, aonde vai, quantos amigos têm, se tem filhos, se paga as contas em dia. A pontuação final será pública, usada para medir seu grau de confiabilidade. Com base nessa nota será determinado se a pessoa é boa para ocupar uma vaga de emprego, se serve para determinada escola, se é confiável para pegar um empréstimo, entre outras relações.

A pontuação varia entre 300 e 850 pontos. Seus usuários são avaliados por suas conexões sociais, comportamento de consumo, segurança, renda e cumprimento das regras. O governo Chinês relata que esse sistema é para incentivar o “bom comportamento” e a “segurança” de sua população através de avaliações online. Para as pessoas que se comportarem bem, terão direito a crédito na praça; para os que forem mal avaliados, dificuldades para conseguir empréstimos e até para poder viajar poderão ser aplicadas. A ideia é armazenar o máximo de informação sobre as pessoas e empresas do país.

A partir de 2020 deve entrar em ação um sistema semelhante. Mas não são as pessoas que avaliam umas as outras, como na serie ‘Black Mirror’, e sim suas ações que são avaliadas pelo governo chinês.

Outra situação na China é que algumas escolas já utilizam uniformes com chips para localizar alunos quando faltam as aulas, identificar alunos que dormem durante as aulas, permitem fazer compras na escola sem dinheiro, onde por meio de um aplicativo, os pais podem acompanhar e limitar os gastos dos filhos. Os uniformes têm dois chips nos ombros e usam reconhecimento de scanner facial para relacionar os uniformes com os respectivos alunos, caso eles tentem trocar de uniformes. Indicam ainda entradas e saídas da escola. As escolas afirmam que optaram por não verificar a localização exata dos alunos depois da escola, mas quando o aluno está faltando e cabulando aulas, os uniformes podem ajudar a encontrá-los. O governo chinês relata que essa é uma estratégia para tornar os ambientes escolares inteligentes.

Por mais que o caso da China com a tecnologia esteja causando estranheza em algumas pessoas, ainda assim não é uma questão de “Parem as máquinas!!!”. A tecnologia não é problema e nunca será. A tecnologia é neutra, depende de quem está utilizando, depende da moral e ética de cada indivíduo.

Cabe a nós seres humanos utilizar essa ferramenta de forma justa, honesta e que venha ajudar o maior número de pessoas. Nos adaptar a essa realidade, nos qualificarmos cada vez mais em nossas habilidades humanas, buscar o autoconhecimento,  manter-nos em constante aprendizado são capacidades a serem adquiridas ou aprimoradas. Ter formação multidisciplinar, flexibilidade cognitiva, habilidade de negociação, orientação para servir, bom relacionamento interpessoal, saber se comunicar e ouvir, ter inteligência emocional, criatividade, flexibilidade, agilidade, equilíbrio e proatividade complementam essa lista. E ainda, ser uma pessoa de influência positiva, conhecer suas necessidades e suas limitações e buscar melhorar as suas competências  de forma que nenhum algoritmo conseguirá decifrar e substituir as capacidades humanas.

A grande crise de emprego está justamente na falta do indivíduo despertar para a revolução que a tecnologia está trazendo para nossa vida, nos forçando a olhar para o que temos de diferencial a ela, o SER humano. Não falta emprego, a questão é que a forma de trabalhar está mudando e continuamos adormecidos querendo fazer tudo como era feito anteriormente. Pesquisas relatam que não existem, ainda, as profissões que as crianças que estão nascendo hoje terão no futuro. Ao ser humano ficarão as atividades que uma máquina não será capaz de exercer. As atividades ligadas à tecnologia do tocar, do sentir. Desperta ou te devoro.

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